
/ May 19, 2012

Escritor e jornalista, Petrônio mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Tem três livros publicados, sendo um de contos e dois de poemas.
É na miséria política, moral e ideológica do Brasil, que o Governo Federal lança programas, vai para rua, distribui pães no circo armado de nossa pobre vida diária. Transformaram o país em um imenso curral eleitoral. Quando mais pobre o povo, mais pão e voto, mais circo e espetáculo. As estratégias são sempre as mesmas, apenas mudaram o figurino, deram uma boa atualizada, uma boa maquiada.
Na ausência de políticas verdadeiras, inventam fatos, folguedos, para tudo ficar como sempre esteve, apenas assegurando a comida no prato; um melhor bocado. Depois disso, apenas a cesta, o descanso dos justos condenados. É o Brasil de antanho alimentado, o Brasil real adormecido; com a barriga cheia.
Chega de crer e alimentar esse país alquebrado, dividido, repartido, tendo um rio intransponível entre a parcela mais rica da sociedade e a mais pobre. É uma divisão infinita em condições e oportunidades. No entanto, o Brasil de barriga cheia, domesticado e aliciado, fica calado, enquanto alguns poucos vendem projetos contabilizando futuras comissões dos que estão pré-marcados para distribuir alimentos, cartões, e outras coisinhas mais... É a pobreza redentora, que faz a multiplicação em 20 vezes ou mais, dos que distribuem pães, enquanto suas vidas são um circo armado de alegrias, frustrações e pecados.
Esse é o Brasil real, o Brasil arrendado por governos que fizeram da pobreza, da miséria, sua profissão de fé, assegurando eleições e cargos, comissões e doações, indicações e conchavos. Tudo, com os mais populistas discursos, com os mais animados comícios.
Não pensam em governar uma nação, mostrar um caminho, prover o desenvolvimento e progresso do país. Mas sim, administrar poderes, arranjar cargos, restringir o crescimento e desenvolvimento do povo para continuar mandando, dando as cartas, dominando a nação de pobres alienados, inocentemente servis. Alugar o parvo é mais barato, diante da limitada visão e mentalidade dos nossos equivocados governantes. São uns atrasados...
Assim, vai ficando o Brasil com a cara deles, com o jeito deles, um país do vale tudo, dos espertos, dos larápios. Um país sem amor próprio, preocupado mais com o quanto que vai ganhar do que o tanto que irá ser. Eles escolheram enriquecer. Nós, apenas, o dever de sobreviver.
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
www.petroniogoncalves.blogspot.com
A história dos Estados Unidos da América nos últimos séculos é a história da farsa.
A maior democracia do mundo faz fora o que não é capaz de fazer dentro, em seu território, contra seu povo.
Inventam inimigos para ganhar eleições.
Financiam e empossam ditadores para escravizar povos e confiscar suas riquezas naturais.
Assim é, assim foi, em anos e anos de domínio e desprezo por povos menos desenvolvidos.
Até bem pouco tempo, fez da América Latina sua latrina, legando a nós a submissão e as atrocidades de sanguinárias ditaduras que vitimaram, sobretudo, o desenvolvimento de um sentimento de nação, de povo, de Estado.
Depois de engordarem e adestrarem Saddan Hussein, em sua eterna luta pelo domínio do Oriente Médio e de seu petróleo, elegeram-no inimigo, viabilizando mais uma eleição para o presidente de olhos miúdos George W. Bush.
Tudo, com uma farsa inventada pelos EUA e aprovada pelo servilismo do mundo inteiro, das maiores potências mundiais.
Era o início do martírio e do inferno para o pobre povo do Iraque, que com a ajuda das maiores democracia do planeta, viu seus dias de paz mutilados, contando com uma cumplicidade e complacência planetária.
Uma escandalosa vergonha mundial!
Depois desse episódio, que decepou o sentido de liberdade no Planeta, instaurou-se um lamentável sentimento de constrangimento no mundo.
Ainda assim, alguns anos depois, o presidente dos EUA, um negro com nome árabe, viaja o mundo falando em liberdade, em democracia, na autodeterminação dos povos.
No Brasil, com desenvoltura de um esgrimista, defendeu isso em todos os canais de comunicação, quando, no outro dia, invadia e matava líbios, tendo a participação de aviões não tripulados.
Os EUA são isso, um país que faz guerras enviando aviões não tripulados.
Onde tem gente, lançam bombas, sem considerar os que estão ao redor de seus alvos.
O êxito das ações de Osama Bin Laden e sua rede de terror só foi possível pelo seu treinamento especial recebido nas trincheiras nebulosas da CIA.
Os EUA investiram no dedicado discípulo para bombardear, instabilizar e dominar o mundo árabe.
Suas fotos ao lado do líder mundial Bush pai estão aí, publicadas mundo afora.
E os EUA mentindo e matando, matando e mentindo.
Um, faz o terrorismos de Estado, aprovado e aplaudido por aqueles que defendem a liberdade e a democracia. Um terrorismo oficializado, sem rosto, eufemizado. Outro, faz o terrorismo escancarado, das ruas, do rosto exposto e divulgado mundo afora. A grande diferença entre eles é que são iguais, que matam e mutilam povos, que escravizam corações e mentes, aterrorizam a Humanidade.Se buscarmos nas páginas da memória, encontramos as mais belas lições da História escritas pela luta da independência dos EUA, coisa que orgulha a Humanidade até os dias de hoje. No entanto, o país que ousou lutar e conquistar a liberdade, com seu exército de homens e ideais, hoje é apenas um fantasma, uma sombra, um vulto, que assombra e atormenta o mundo inteiro.
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
Depois das comemorações do 21 de abril, somos tomados por um espírito nacionalista pré-datado, por uma vontade de ser um grande país, de construirmos uma grande nação. Passados os folguedos, o silêncio volta a imperar Brasil afora, como se estivéssemos sob uma eterna e silenciosa vigilância, sob o domínio de um governo oculto, paralelo, estrangeiro.
Tiradentes e os inconfidentes imaginavam um novo país, soberano, dono de suas riquezas, senhor de seus atos. Uma nação livre, próspera, com uma mentalidade altruísta e nada servil. Por esse sonho, foram perseguidos, presos, julgados e condenados. Venceu o colonizador, perdemos todos nós, até hoje.
Se sua luta inicial era pelo direito do povo da colônia às suas riquezas, ou seja, ao ouro e seus minerais, constatamos hoje, 200 anos depois, que a situação continua a mesma, se colocarmos no centro da questão, como foi propagado nos últimos dias, pelas maiores autoridades nacionais em Ouro Preto, diante da estátua do alferes, a política mineral. O ouro de outrora se converteu no minério de ferro de agora, quando somos, diariamente, dilapidados pela sua extração e exportação, fazendo a riqueza de outros países, nos deixando apenas a poeira da história.
O lastro da arrecadação pelo minério de ferro tem como base a revisão dos royalties, corrigindo erros em anos e anos de equívocos e submissão. Mas a compensação pela revisão dos royalties é apenas o primeiro passo nesse processo, em que se deve privilegiar a riqueza natural financiando o desenvolvimento nacional, como sonharam, um dia, os inconfidentes.
Estudo recente, elaborado pelo Congresso Nacional, revela que na cadeia produtiva do ferro, a mineração gera apenas 100 empregos por mil toneladas de minério extraído e exportado. Se essas toneladas fossem beneficiadas aqui, elas gerariam, diretamente, 4 mil empregos. No ano de 2008 foram exportadas 282 mil toneladas de minério de ferro, que foram beneficiadas mundo afora e transformadas em 170 mil toneladas de aço. Só neste ano, com todo minério exportado, deixamos de gerar 680 mil empregos diretos no Brasil.
O beneficiamento do minério de ferro pela indústria nacional deve guiar essa proposta de criação de uma política minerária para o Brasil. Pois isso não gera apenas emprego e renda para o trabalhador, mas, sobretudo, um sentimento de nação, de estado, de cidadania. É com o emprego que o trabalhador da mineração poderá dar uma vida digna a sua família, que poderá dar educação com qualidade e qualificação a seus filhos, tendo seus direitos básicos preservados. Esse era o desejo inconfidente, essa deveria ser a nossa realidade. É preciso completar o sonho de Tiradentes, é preciso acabar com a espoliação em Minas e no Brasil. Aprofundando ainda mais na questão minerária, nos deparamos com a preservação do meio ambiente. Não podemos adotar a mentalidade de que se pagar mais royalties se poderá explorar mais, à vontade. Não! Porque o imposto é uma compensação, ou seja, um reparo pelo impacto que foi gerado no meio ambiente, aos danos e prejuízos inerentes à atividade minerária, a sua extração.
Ora, a ordem natural então é gerar menos prejuízo, menos impacto, menos dano à natureza. É aumentar a produção pela produtividade. Isso deve orientar a criação do marco regulatório da mineração, sob a cobrança justa dos royalties, exigindo critérios de menos impacto para qualquer exploração futura, com estudos detalhados sobre as várias fases de extração de minério e exploração das jazidas, visando sempre o menor impacto para cada região a ser explorada. Sobretudo, a preservação dos mananciais existentes na área de mineração.
Isso tem em sua base a água, pois onde tem minério tem água, e a água é a fonte da vida na terra. Não é exagero dizer que uma possível terceira guerra mundial será pelo uso da água. Mundo afora, acompanhamos no presente o futuro impasse.
Água e minério são bens naturais, são duas riquezas, duas dádivas da natureza. Temos que preservá-las e respeitá-las, saber tirar delas benefícios para nosso desenvolvimento, pois o nosso futuro, inicia-se com elas.
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
www.petroniogoncalves.blogspot.com
Longe de Minas e das boas tradições mineiras, a presidente Dilma Rousseff segue a rotina que revela o mais profundo ensinamento de seu estado natal: trabalhar em silêncio! Em seu primeiro mês de governo, constatamos a mudança de foco na gestão presidencial, passando da origem das greves barulhentas para o anonimato das ações e planos clandestinos. Na condução de seu país, cada presidente revela a sua origem, sua formação, desde a Velha República até os dias de hoje.
As empresas aéreas fazem com os passageiros no Brasil o que as empresas de ônibus não são capazes de fazer. É uma grande certeza na falta de impunidade que estimula, anos e anos, essa relação unilateral e desrespeitosa em nosso país hoje. Aos passageiros, todas as taxas e punições possíveis. Às companhias aéreas, toda benevolência e complacências dos brasileiros e dos órgãos reguladores.
Despidos do sentimento da mais primária cidadania, não somos capazes de estabelecer, sequer, uma relação profissional com as companhias aéreas. E olha que elas transportam todas as autoridades brasileiras, do mais baixo ao mais destacado escalão, fazendo uma multidão de insatisfeitos em todos os cantos do país. Com o desmantelamento contumaz das empresas de excelência no setor aéreo brasileiro, perdeu-se a referência da qualidade dos serviços prestados e o trato com o passageiro. Tudo isso, tendo o silêncio cúmplice das autoridades nacionais.
A expansão do mercado aeroviário não foi ascendente, mas descendente, revelando uma visão distorcida e equivocada na administração de um novo nicho que se amealhava. As novas companhias aéreas definiram como estratégia de mercado retirar o passageiro dos balcões das companhias de ônibus e levá-los para os check in dos aeroportos, sem nunca prestarem a mesma qualidade de serviços e atendimento.
Com a facilidade do acesso ao crédito e a popularização do uso da internet, abriu-se vendas de passagens de todas as formas e todos os gostos, sem nunca pensar na urgência do usuário que, afinal, é a razão de todo esse processo. A concorrência se estabeleceu de forma desleal em um primeiro momento, prometendo vantagens, descontos, conforto, status, sem considerar o passageiro e sua satisfação. Tudo culminou em um processo que se arrasta até hoje, evidenciando sua fragilidade e ingerência, não suportando ao mais anunciado e tradicional feriado. O passageiro aéreo é hoje um rejeitado, um ignorado pela maioria das companhias aéreas que atuam em nosso país.
O que era o presságio de festas e comemorações - as viagens de férias e excursões de fim de ano - se revelaram, nos últimos dias, uma profunda decepção, com uma grande horda de passageiros sem vôo, esquecidos e humilhados nos saguões dos aeroportos brasileiros, sem ter uma resposta precisa sequer de quando poderiam seguir viagem. A insegurança tomou conta de quem está com passagem comprada e viagem marcada no Brasil. E essa constatação se faz em todos os estados, de ponta a ponta em nosso país.
No ar e distante da população, não podemos deixar que um mercado tão amplo, promissor, estratégico e vasto fique nas mãos das empresas descompromissadas, que já se revelaram incapazes de cumprir com as ofertas marcadas com muita antecedência. É preciso que o governo federal interceda e fiscalize diretamente a atuação e expansão das companhias aéreas brasileiras. Só assim poderemos assegurar ao cidadão brasileiro o cumprimento dos serviços básicos oferecidos, e que as viagens das férias sejam fruto de um direito conquistado.
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor - www.petroniogoncalves.blogspot.com
É amplamente anunciada e propagada as conquistas sociais e políticas do Brasil nos últimos anos. O país segue crescendo e registrando números favoráveis. É nítida a ascensão das classes mais baixas aos privilégios que era assegurado, até bem pouco tempo, apenas às mais altas.
No entanto, todas essas conquistas caminham sozinhas, apartadas de um comportamento que não acompanha a inércia que eleva as classes brasileiras a novas posições sociais. Não há uma conduta comportamental que nos faça acreditar que algo mudou, que o passado ficou para traz. Não registramos uma nova consciência, uma nova mentalidade de vida comungada amplamente no Brasil, como se todo um povo imaginasse junto viver em uma nova nação, com uma nova postura. Vivemos em um grande país, um generoso país, mas ainda nos falta povo.
Quando foi criada e passou a vigorar a Lei do Ficha Limpa - ainda que da maior importância mas com efetivação duvidosa - imaginamos que o povo brasileiro iria completar a Lei nas urnas, não elegendo os fichas sujas, amplamente apontados por entidades de classe e movimentos sociais no Brasil inteiro.
O que seu viu, para desesperança maior, foi a entronização do voto cacareco, com a eleição do Tiririca e de Paulo Maluf. Isso, no maior estado da Federação, centro político e financeiro do Brasil. Quase uma parodia do medieval pão e circo. Neste caso, um pão superfaturado, como se o povo aprovasse essa conduta, desde que o pão esteja na mesa para saciar a fome de todos. Este é o Brasil real, o Brasil de todo dia.
Agora, vemos as Forças Nacionais libertando vilas e favelas inteiras no Rio de Janeiro. É preciso que a população carioca termine o trabalho iniciado pela força bruta e expulse da política municipal, estadual e nacional, os traficantes de cargos e poder, aqueles que distribuem balas nas favelas e são eleitos vereadores, aqueles que dão festas e brinquedos e são eleitos líderes comunitários, acobertando assim trabalhos de milícias e policiais corruptos.
É preciso que o povo tome as rédeas de seu destino, que tenha a consciência cívica da cidadania. É preciso que de todo esse sofrido processo, vivido em anos e anos de desespero, incertezas e dor, sirva como lição e estimule a busca por um presente e futuro diferentes para as populações carentes do Rio de Janeiro. É tempo de se reciclar, e o Brasil somos nós, os nossos atos.
A ótica não é poder comprar um som mais potente para tocar mais alto o funk de cérebro de melancia. Mas sim, de um som mais potente para ouvir nitidamente o som de todos os instrumentos, daquela canção que fale de uma vida vitoriosa, dos infortúnios do passado e da esperança em um futuro melhor. Essa sim, é a nova trilha de uma vida que cresceu, que amadureceu, e que começa a florescer e dar novos frutos.
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
Eram os anos de chumbo no Brasil. No Chile, muitos brasileiros viviam o exílio, entre eles o jornalista mineiro José Maria Rabelo, que dirigia um importante instituto na periferia de Santiago. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que sempre fazia questão de se mostrar boa praça entre os exilados - Fernando Henrique viveu um exílio voluntário - ostentava o cargo de diretor das Organizações das Nações Unidas. Uma bela noite, atendendo ao convite de José Maria Rabelo, Fernando Henrique fez uma bela palestra em seu instituto.
Ao final do evento, sabendo que José Maria não possuía carro, Fernando Herinque, que morava na mesma região do amigo brasileiro, perguntou em alto e bom som: “Zé Maria, você está de carro?”. Zé Maria ao dizer não, aceitou a carona de Fernando Henrique. Depois de muito rodar pela capital chilena dentro do imponente Mercedes-Benz da ONU, a chuva os pegou nos arredores de suas casas, quando, surpreso, Zé Maria ouviu constrangido a pergunta de FHC: “Ô Zé Maria, aqui já está bom para você?”. Como manda a boa tradição mineira, Zé Maria respondeu baixinho: “Uai, está bom sim”. E foi deixado ali pelo amigo, na chuva e no frio, até terminar sua viagem de taxi.
Fernando Henrique Cardoso só não sabia o que o destino havia lhe reservado. Anos depois, foi deixado, entre uma palestra e outra, na chuva e no frio pela história, se tornando um exilado em seu próprio país.
FHC é um clandestino ideológico, um corpo político insepulto, que espalha seu mau cheiro entre aqueles que estão a sua volta, aqueles que vivem a sua sombra. José Serra e Geraldo Alckmin sabem muito bem o quanto é desagradável esse mau cheiro e que nada, ou quase nada, cresce a sua sombra.
Pesa sobre o cadáver político de FHC uma política entreguista, usurpadora, servil; de doação do patrimônio público; submissão à política internacional, ao FMI; o sucateamento do Estado, dentro de uma política de administração zero; de adoração ao mercado financeiro - essa entidade sem rosto e sem pátria; as medidas antinacionais e antipopulares; o culto extremado à vaidade, ao personalismo; o compadrio; o fisiologismo; o mensalão ideológico e a compra da reeleição; a interferência direta nos poderes, com a criação e a exímia atuação do engavetador geral da república; o desdém às Forças Armadas e à Polícia Federal; as péssimas e criminosas gestões nas estatais para justificar suas privatizações; o desmatelamento do sentimento de nação.
Não há precedente na história do Brasil de uma figura que depois de galgar os mais altos cargos públicos tenha sido legada ao esquecimento. Nem o Collor, que entrou na presidência da República pela porta da frente e saiu pela porta do fundo, corrido.
FHC é quase uma sombra, um vulto, uma assombração. Quando José Serra fez seu discurso de reconhecimento da derrota, transmitido ao vivo por todos os canais de rádio e tv, assistimos ao revelador episódio quando a filha de Serra se esmerou em alertar o candidato sobre a presença de um ex-presidente entre os correligionários. Serra olhou, virou-se à filha e falou: Ah, o Fernando Henrique, tudo bem! E voltou-se para seu discurso, sem uma menção sequer do ex-presidente e ex-chefe.
Ainda assim, FHC deve agradecer aos céus. Pois outros presidentes que implantaram em seus governos a mesma política que ele adotou no Brasil enfrentaram, além do ostracismo, a justiça, e foram todos condenados, como foi com o Menem na Argentina e Fujimori no Peru.
Mas como a sociologia ensina e FHC propaga, o Brasil é o país da boa convivência e tem um povo muito generoso. Seu grande erro foi acreditar que além de tudo, o povo era bobo.
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
Enquanto o Brasil inteiro assiste ao filme Tropa de Elite nas telas de cinema, a população do Rio de Janeiro o vê em 3D, na porta de suas casas, pelas ruas e esquinas da cidade.
Com uma administração pública voltada para a praia e de costas para os morros e para a população que neles vivem, o tráfico de drogas foi fazendo a parte do Estado nas favelas cariocas. Atendendo e dando suporte a uma população que parecia não existir, que ficava à margem da paisagem, atrapalhando o visual, os traficantes começaram a reinar, se tornando o que o poder público nunca foi para aquela parcela esquecida e abandonada da sociedade. Era o início da construção de um império de areia e pó.
O grande equívoco é que os governos esqueciam que por detrás daqueles casebres, havia gente; carente de tudo, ou quase tudo. Pessoas que moram na segunda maior capital do país, cartão postal para o mundo, vivendo como se estivesse na idade da pedra, sem o mínimo de dignidade e de cidadania. Foi aí que o tráfico e a bandidagem encontraram garrida, um espaço enorme para crescer, florescer e fazer fortuna.
Para uma população que vive de vento, o tráfico tornou-se uma indústria dentro das grandes e pequenas favelas, garantindo emprego, renda e a possibilidade de ascensão a meninos e meninas desde a mais tenra idade. Era tudo muito sedutor para quem não via nada além da linha do horizonte.
Financiado pelos que estão à praia, ao som da brisa e das ondas, o tráfico de drogas foi crescendo e se aparelhando, tendo a certeza clara da impunidade e de que a fonte nunca secaria. Assim foi durante anos e anos, tendo, na maioria das vezes, o apoio e a proteção dos morados das favelas, que tinham no trafico o que nunca tiveram no Estado e em suas repartições. Não é exagero lembrar que a única representação do Estado que subia as favelas cariocas era a polícia, ou seja, a força repressora.
As favelas cariocas ficam todas em morros. Nelas não se planta maconha, não se beneficia cocaína e nem se fabricam armas. No entanto, elas estão sempre cheias delas. A droga vem toda de fora, em grandes carregamentos e quantidade, garantindo o abastecimento regular das facções e a devida parcela do usuário de Ipanema e Leblon, que receberá em casa, com toda segurança, sua cota do final de semana. Há todo um aparato militar devidamente credenciado e aliciado para garantir a chegada dos carregamentos de drogas e armas vindas de todas as partes do mundo aos morros cariocas. É importante destacar que nunca o tráfico de drogas no Rio conseguiria montar sua logística de armazenamento e distribuição sem a devida participação das polícias e do poder institucionalizado.
Esse suporte foi fundamental para a militarização dos morros, que contam hoje com um arsenal de dar inveja a qualquer exército, exibindo em plena luz do dia armas exclusivas das Forças Armadas. É o grande sinal de que em alguma parte, todas essas instituições se encontram, compondo esse surpreendente império regido pelo tráfico de drogas na cidade maravilhosa. É aí que está o grande financiador das metralhadoras que cantam heróicas nas noites cariocas, dos fuzis que cruzam em raios o céu estrelado das noites sem lua do Rio de Janeiro. O tráfico não começa nos morros, apenas tem o seu ponto final lá, a sua distribuição, a parte que suja as mãos.
Essa é a realidade, o cenário de uma guerra anunciada, que governos repetidos insistiam em não enxergar. Entre a omissão dos governos e os chefões do crime organizado, está a população brasileira, que sempre recebe no peito uma bala perdida de seus governantes!
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
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